1998 – Como Tudo Começou

Historia-Bloco-do-Pink-Floyd-1998

Por: Giovany Faria (escrito por volta de 2002)

 

A cidade de Pedralva sempre teve um carnaval tradicional. Sobre suas ruelas de pedra, entre os casarões da época dos coronéis e sob o céu do Sul de Minas muitas histórias aconteceram e algumas lendas surgiram. Era o carnaval das marchinhas, da banda no coreto e das matinês no clube. Pierrôs, arlequins e columbinas faziam guerras de confete, serpentina e lança-perfume ao som de “olha a cabeleira do Zezé…”, “se você pensa que cachaça é água…”, “mulata bossa-nova…”, “mamãe eu quero…” e muitas outras. Fantasias, máscaras e lantejoulas faziam a farra dos foliões, que puxavam filas e pulavam nos salões.

 

Segundo o jornal “O Centenário” (fevereiro de 1991), um dos mais antigos blocos conhecidos de Pedralva (quando a cidade ainda se chamava Pedra Branca) é o Recreio das Flores, que foi idealizado por Pedro Adriano e José Realino por volta de 1927 ou 1928. Dão Carneiro é o autor do nome e juntamente com Zé Realino fez a música para o bloco. Pouco depois surgiu o Bloco Futurista e o Bloco Tenentes Sedutores, inspirado no filme homônimo.

 

Em um edifício que ainda existe, em frente à atual prefeitura (na rua de baixo), havia um clube no qual eram realizados concorridos bailes de salão e onde, através dos anos, os blocos se sucederam: Bloco dos Casados, Bloco dos Piratas, Generais da Fuzarca, Nóis Memo e muitos outros.

 

Por fins da década de 70 e na década de 80 uma deslumbrante disputa surgiu. A rivalidade beirava a paixão entre os dois grupos carnavalescos da cidade, o Coisa Nossa e o Unidos por Acaso, que batalhavam a folia de seus participantes e organizadores. O confronto carnavalesco se dava através dos sambas-enredo cantados com uma força invejável, das fantasias temáticas, dos carros alegóricos, das baterias e da tradição que os envolvia.

 

Grande parte da tradição dos blocos a cidade deve à família Rezende Lopes e ao seu belo Extrabefaiz, que atravessou anos e anos, vezes intenso, vezes capengando, mas que continua marcando sua sempre irreverente presença desde 1969 até hoje.

 

A parte triste é que tudo isso sempre foi história (ou lenda…) para nós que somos da geração mais jovem e que pouco – ou nada – presenciamos desses fatos. A verdade é que o carnaval se rendeu à pasmaceira. Privilegiados de nós ainda puderam pegar os suspiros finais do Clube Recreativo realizando matinês com charangas (Zé Arnaldo, Edel e companhia) e de Coisa Nossa e Unidos por Acaso saindo às ruas. Lentamente, tudo acabou em definitivo. A “festa” se resumia a nada mais do que um pequeno palco tocando as mesmas e mesmas e mesmas fitas durante os cinco dias de carnaval enquanto poucos se espremiam e suavam nos “curraizinhos”. A cada ano o local mudava segundo os interesses políticos e dos donos de bar. De carnaval para carnaval o movimento e a animação diminuíam a ponto de se tornar repugnante a ideia de outro fevereiro.

 

Aqui começa a história do Bloco do Pink Floyd.

Férias escolares, verão do ano de 1998, e o nosso grupo de amigos andava bastante coeso e cheio de programas e festas. Tínhamos entre 16 e 18 anos de idade e a turma mais constante era: João Paulo, Duda, Lucas (o Luquinha), Haroldo, Edgar, Cícero, Nilton, Kleber (que era o apelido do “Pacato” na época) e eu. Alguns haviam prestado vestibular e estavam esperando o resultado. Todos éramos fãs de música, o que é uma vocação dos pedralvenses, com destaque para o bom rock e, por consequência, Pink Floyd. Sempre tínhamos um violão à mão e rock era um assunto corrente entre nós.

 

Em uma “galinhada” na casa do Nilton, Pink Floyd rolando, é sugerido despretensiosamente por alguém que se colocasse “um Sá & Guarabyra” ou, para animar, um axé. Pacato em estado digamos assim… alterado, não fez jus ao nome, fanático como ele só, chorou (de verdade!) pela heresia. Repetia em tom de condenação “cêis num são mais Pink Floyd!” e um certo desentendimento persistiu até o momento em que a comicidade da cena nos rendeu e este “cêis num são mais Pink Floyd!” virou um jargão entre nós naquele ano. Após a galinhada (com galinhas de origens “suspeitas”, lembram-se, moçada?), fomos para perto do Colégio onde estava havendo, como em todo janeiro, a festa do padroeiro da cidade, São Sebastião. Naquele mesmo dia haveria também um baile no Clube de Campo. Lembro de ter passado antes na casa do Pacato, que nessa hora já tinha tomado um banho e estava melhor (fez questão de colocar Pink Floyd para tocar e ficou me mostrando o Ummagumma). Nilton, João Paulo e eu combinamos de irmos ao baile do jeito que estávamos, isso significava de bermuda, de chinelo e fedendo. Nesse baile aconteceu (e eu vi) o auto-proclamado “mergulho” do João Paulo na… quadra de futsal. Foi uma época muito intensa e memorável.

 

Certo dia, Nilton, às pressas, passa em minha casa dizendo que João Paulo e Luquinha tinham passado no vestibular da Universidade Federal de Juiz de Fora. Pegamos tudo de mais fedido que pudemos achar, misturamos e fomos rapidamente dar o trote neles. O resultado já saíra há alguns dias, mas eles o haviam omitido para adiar o inevitável. Ao final de um dia de muita sujeira e substâncias fétidas, fomos para a casa do João Paulo e com a ajuda de sua mãe raspamos o cabelo deles daquela maneira ridícula que pode ser vista nas fotos do primeiro ano do Bloco.

 Bloco-do-Pink-Floyd-1998-01

O estalo inicial para a ideia do Bloco ocorreu de uma maneira que pouquíssima gente sabe e da forma mais ao acaso possível. Era, provavelmente, o domingo anterior ao carnaval daquele ano de 1998 à noite e sobraram na praça de Pedralva apenas João Paulo, Pacato e Luquinha. O assunto era queixas e reclamações do iminente carnaval que nos entediaria. De tanto pôr defeitos, Luquinha solta a sua particular e despretensiosa solução para curtirmos um carnaval do jeito que gostamos: “Aqui, vamos fazer um bloco da galera!”. Pacato em estado digamos assim… alterado, completou: “Só se for o Bloco do Pink Floyd!” A “viagem” foi geral e os três passaram a madrugada imaginando carros com martelos, guitarras, baixos, baterias e muros no meio do carnaval. É incrível como o carnaval brasileiro e a banda de rock inglesa, aparentemente antagônicos (ou no mínimo nada-relacionados), puderam se combinar e efetivamente funcionar. De fato, uma criatividade antropofágica no surgimento da quimera carnavalesca!

 

Passada a euforia inicial, a tendência é que esses “assuntos de fim de noite”, tais como os de “mesa de bar”, sejam abandonados. Acredito que no início nem mesmo eles levaram a ideia muito a sério; no entanto, se empolgaram e avisaram toda a galera. Eu estava no Colégio na primeira semana de aula do terceiro colegial (atual Ensino Médio) e eles, que tinham acabado de se formar e estavam à toa, iam para lá na hora do intervalo. Nitidamente, lembro de ser chamado pelo João Paulo, que me convidou de maneira direta: “Vamos fazer, no carnaval, o Bloco do Pink Floyd, você topa?” Confesso que a minha primeira impressão foi de que aquilo era uma sandice e que certamente não daria certo, mas sem pensar mais respondi firme e convicto “lógico!”, afinal não tinha nada a perder e tudo, naquela época, era farra.

 

 

 Estava surgindo uma contra-reação ao marasmo que acometia a cidade; a agitação era tamanha que para o mesmo carnaval também apareceram outros dois blocos, o Usquibebi e o Manguaça.

 

Na quinta-feira houve uma pequena reunião para planejamento. As “obras” tiveram início na sexta-feira de carnaval na casa do João Paulo, e nesse dia o Bruno se juntou a nós. Para a bandeira do Bloco pintamos um muro e quando tínhamos que pensar em uma frase o Nilton sugeriu a rima “No Carnaval curta The Wall”. Cícero, imediatamente, aproveitou a deixa e batizou a nossa festa: seria o “Carnawall” (há de se render a essa originalidade, os que não o fizeram a princípio, hoje defendem o BPF).

 

Bloco-do-Pink-Floyd-1998-04 

Como tudo estava sendo feito de última hora (literalmente), foi combinado da seguinte forma: quem quisesse participar era só entregar uma camiseta branca para nós. Compramos um spray, pegamos “emprestado” tinta de tecido da Vilma, mãe do João Paulo, e aos poucos foram aparecendo outros integrantes. Na parte da frente da camiseta, com uma vareta, fazíamos um muro e pichávamos em azul-claro ‘Pink Floyd’ (como na capa do disco The Wall); a parte de trás estava a mando da criatividade: escrevíamos mensagens relacionadas ao Bloco e ao dono da camiseta.

 

Bloco-do-Pink-Floyd-1998-07

 

Foram três dias inteiros pintando camisetas, fazendo muita bagunça e ouvindo Pink Floyd. Durante a noite, fazíamos nossa entusiasmada publicidade e avisávamos no palco do carnaval (na praça principal da cidade), imaginem a cena: “Quem estiver interessado em participar do ‘Bloco do Pink Floyd’ é só levar uma camiseta branca à casa do João Paulo amanhã”. Assim, conseguimos convencer mais alguns amigos…

 

 Estávamos aproveitando muito, houve também um dia que João Paulo e Lucas saíram pintados de Kiss (com aqueles cabelos!).

 

Bloco-do-Pink-Floyd-1998-02
Pacato “maquiando” João Paulo (reparar o spray das camisetas atrás)

 

 

Bloco-do-Pink-Floyd-1998-05

 

Fiquei exausto de tanto pintar camisetas, mas era divertido. As frases na parte de trás das camisetas iam do já famoso “Cêis num são mais Pink Floyd” até suas variações do tipo “Tal pessoa é Pink Floyd” e, mais maliciosamente para algumas integrantes, “Tal menina pertence à galera do Pink Floyd”. Para o irmão do Haroldo (que sabíamos o nome – Hugo) escrevemos “O irmão do Haroldo é Pink Floyd” e para a sua namorada “A namorada do irmão do Haroldo também é Pink Floyd”. O Rafael, vindo de Volta Redonda, entrou na história mais ou menos por aí através do Matheus, seu primo, que já era nosso amigo e o levou para o Bloco. Como não o conhecíamos pintei na sua camiseta “Este cara que a gente não sabe quem é direito também é Pink Floyd – Rafael é da Galera”. A camiseta do Matheus ficou “O Matheus é Ummagumma”. (Não posso afirmar, mas acredito que ninguém na época sabia o que significava “Ummagumma”: é uma gíria de Cambridge para sexo; o engraçado é que esse álbum do Pink Floyd foi lançado em 69! Pode também significar rock’n’roll, já que o termo antes de designar o estilo musical também era usado pelos blueseiros norte-americanos para se referir ao ato sexual). Na minha camiseta fui pintar “O Carnawall de Pedrock pertence à galera do Pink Floyd” e motivado pelo “cansaço etílico” acabou saindo “CANAwall”, ou seja, sem a intenção fiz um trocadilho em cima do trocadilho. O João Paulo se aproximou de mim para ver o que eu estava fazendo e disse “muito boa a sua ideia, ficou legal, eu entendi…”. Foi só aí que eu vi que tinha pintado errado, mas como já era tarde fingi que tinha sido proposital, rimos muito e aceitei o erro pintando umas canas na camiseta, semelhantes a que está na bandeira de Pedralva. Saíram muitas coisas criativas e engraçadas.

 

Bloco-do-Pink-Floyd-1998-03
Em pé (esq-dir): Bruno, João Paulo, Pacato, Luquinha e Nilton; Agachado: Giovany.

 

Na “Segunda-feira de Carnawall” aproximava-se a hora do Bloco sair. O spray tinha acabado, mas ainda estávamos pintando camisetas até no corpo da pessoa, de qualquer jeito, pois até de última hora apareceram integrantes para a galera do Pink Floyd. Duda arrumou os instrumentos, ensaiou e foram saindo gritos e músicas, naturalmente. Alguém havia chamado o “Chiclete”, nosso amigo, que era um animador muito competente. No último minuto, quando já não contávamos mais com ele, chega Pacato em estado digamos assim… muito alterado, querendo a todo custo tocar um instrumento (mais um fato muito engraçado). Devido às suas condições extremas não pudemos permitir… Ele se chateou, mas acabou saindo.

 

Lembro-me muito bem do clima antes da saída do Bloco: os preparativos finais, o pessoal chegando e, sobretudo, a expectativa. Era um misto de curiosidade, empolgação e até insegurança. Qual seria o resultado dos dias de carnaval despendidos pintando camisetas? Anos depois, o Rafael me contaria que no momento em que chegou na concentração pensou “o que estou fazendo aqui?!”, se sentindo meio deslocado ao ver um bando de “malucos” com o rosto pintado, bebendo cachaça, falando sobre Pink Floyd e com cortes de cabelo não muito ortodoxos. Hoje, isso é mais um motivo de risadas para nós!

 

Já estávamos saindo quando, na maior correria (para variar), o Haroldo lembrou de levar um CD para o palco do carnaval. Da casa do João Paulo subimos cantando e gritando e fomos até a rodoviária: um bloco carnavalesco sobre Pink Floyd com um bando de jovens pulando com suas camisetas brancas “toscamente” pintadas à mão. Estávamos em número de cerca de 30 pessoas somente (mas todos muito animados) e com a faixa “abrindo alas” chegamos à praça, onde se encontrava a maior aglomeração de pessoas. Nesse instante nossa bateria para e escuta-se um helicóptero, muitos olharam para cima; começava “The Happiest Days of our Lives” seguida por “Another Brick in the Wall” em pleno carnaval, em alto e bom som. Quem não conhece tente imaginar a cena, só poderia acontecer mesmo em Pedralva. Cada paralelepípedo da velha cidade nessa noite se arrepiou.

 

Bloco-do-Pink-Floyd-1998-06

 

No dia seguinte, o último do carnaval, estava chovendo bastante. Estávamos em uma festa de aniversário na casa dos pais da Agnes (nossa “mãe”) e lembro de brincarmos de “salada-mista” esperando a chuva passar (tinha mulher também, claro!). Como o tempo não dava trégua, João Paulo, Bruno e eu saímos na chuva, ainda com nossa camiseta do Bloco, e lembro do orgulho que sentíamos ao ver mais uma única pessoa que fosse que também trajasse a camiseta do nosso “empreendimento carnavalesco”. Apesar do nosso entusiasmo, ficamos um tanto quanto frustrados quando, dias depois, não merecemos uma citação sequer na cobertura da folia pelo jornal da cidade.

 

Naquele carnaval apareceram as camisetas com um muro. Quase ninguém entendeu, alguns criticaram, mas nós curtimos muito. Tudo aconteceu na base do total improviso e surpreendentemente saiu melhor do que podíamos imaginar. O Bloco do Pink Floyd surgiu assim, de maneira casual, oportuna e definitiva, pois este é só o começo da história…

 

FacebookTwitterGoogle+PinterestCompartilhar

3 thoughts on “1998 – Como Tudo Começou

  1. Bacana, muito bom conhecer a história do Bloco e seus personagens, e acima de tudo saber que já fazem 18 anos de resistência, que traz divisas para a cidade e enaltece a cultura mineira, ganhando adeptos em vários estados brasileiros, pois a cidade é linda, o povo acolhedor e culto, e isso de por si já é um diferencial raro e em muito nos encanta, principalmente nós fãs do Pink Floyd. Mil graus, brods!

  2. Parabéns tanto pela disposição em “construir” uma história e merecida homenagem ao Pink Floyd como a beleza do texto que de forma, “poética” deixa muito explicita a alma de cada um nessa construção.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *