História do Bloco. 1999 - Aumenta o Som, é Carnawall!

Historia-Bloco-do-Pink-Floyd-1999

Por: Giovany Faria (escrito por volta de 2004)

 

Mil novecentos e noventa e oito foi um ano fantástico. Não por acaso, esse ano marca o surgimento do Bloco do Pink Floyd. Tudo tinha sido muito intenso e agora parece claro que aquela época estava sendo de transformações cruciais para todos nós. Transformações em sua maioria positivas. Talvez essa fase seja típica de todos os jovens naquela idade, mas sentíamos que “alguma coisa especial” estava acontecendo.

 

Em 98 eu estava cursando a terceira série do ensino médio em Pedralva e, embora tenha passado sem problemas, aquele não foi um ano de muito estudo (está bem, nenhum…). Todo final de tarde me encontrava com João Paulo e Bruno na escola de música, embaixo da casa da “vó Daura” e do “vô Joaquim”. Mexíamos intensamente com música. Enquanto eu aprendia teclado e Bruno violão, João Paulo ensinava a seus alunos, entre eles o Léo Bustamante, que estava começando a tocar violão naquela época. Éramos “alunos” especiais pois, além de não pagarmos, íamos todos os dias e ficávamos durante toda a noite. Entre um aluno e outro conversávamos, fazíamos bagunça e estudávamos teoria musical. Descobrimos muitas músicas, bandas e artistas e nos influenciávamos mutuamente. Graças a esse tempo, nossa gama de conhecimento musical se ampliou consideravelmente e creio que aí se formou nossa personalidade musical básica. Apesar de termos muito em comum musicalmente, cada qual de nós podia a todo momento mostrar algo novo. Bruno e eu estávamos particularmente muito interessados em 14 Bis. Escutávamos sem parar e fomos em alguns shows.

 

Quase todos os dias após a aula de música íamos assistir um filme. Como já tínhamos repassado toda a prateleira de lançamentos, começamos a apelar para filmes desconhecidos que, não raro, eram frustrantes. Na locadora, a Daniela tinha realmente muita paciência conosco: até guerra com os perfumes que ela vendia fazíamos.

 

Por essa época, conhecemos e ficamos muito amigos do André Abreu: toda sexta-feira ele vinha de Itajubá passar o final de semana em Pedralva e o esperávamos na rodoviária. Nós quatro éramos inseparáveis e sempre estávamos planejando algo para ser feito. Em abril de 98 fomos pela primeira vez ao “Castelha”, o sítio do Chinho (avô do André) no bairro Castelhano. Junto com os violões e suprimentos básicos para uma noitada estavam presentes André, João Paulo, Bruno, Flávio, Matheus e eu. Excluindo-se o André, todos éramos “estreantes”. Existe um vídeo (feito com as antigas e enormes filmadoras VHS) muito engraçado desse dia que, já agora, nos impressiona pela nossa aparência quase pueril, discrepante desses cacos de hoje. Já pelo meio da madrugada, embrulhados em cobertas, estávamos conversando do lado de fora da casa. Entre os muitos papos, André quis saber o que significava “Pink Floyd”. Como o Flávio sabia inglês e até já morara nos Estados Unidos, era o “cara” certo para responder. Contudo, debaixo daquele céu transcendendo estrelas, no escuro e deitados lado a lado, não poderíamos deixar a cena “amorosa-sexual” passar despercebida. “Dedé” falou: “Pink eu sei o que é”; e com entonação convidativa “perguntou”: “Flávio, Floyd.”! Nesse momento nasceu o “Flavinho Floyd” que, anos depois, no mesmo Castelhano, também assumiria a face de “Mancha”, mas essa é uma outra história…

 

O Matheus já nos tinha apresentado o Rafael, mas como seu primo era muito quieto e meio tímido (naquela época) não se entrosou muito, mesmo tendo saído conosco no primeiro ano do Bloco do Pink Floyd. Ficamos realmente amigos a partir de uma noite de violões e vinho na casa do Chinho. Como toda a família do André tinha ido para o Castelhano, ele me chamou para ficar lá na casa e também João Paulo, Bruno e Matheus. Este último, provavelmente cheio das malícias, só deixou o Rafael lá e foi embora. Lembro de tocarmos Mamonas Assassinas, Paralamas do Sucesso e nada do Rafael, miúdo, sair do seu cantinho. À medida que o vinho começava a subir, começaram a descer palavras intermináveis do antes silencioso e ensimesmado Rafael: “Eu sou de Volta Redonda!”. Silêncio. “Vocês sabem onde é Volta Redonda? Fica a 220 quilômetros daqui.” “Vocês já foram em Volta Redonda?” “Eu vou no baile funk… lá em Volta Redonda, vocês sabem onde é Volta Redonda? 220 quilômetros daqui!” Ele estava falando “pelos cotovelos”, então subimos e fomos assistir televisão. Era sábado e estava passando um daqueles filmes pornôs da Band, bem fraquinhos. Todos estávamos concentrados no filme e o Rafael continuava falando sem parar. Quando entrava uma rara cena melhorzinha, todos na expectativa olhando para a tela, ele surgia: “Vocês sabem onde é Volta Redonda?” Era um “fica quieto” em uníssono até que ele, aparentemente, se acalmou. Já estávamos pensando que ele dormira quando no maior silêncio, do nada, ele solta em tons proféticos pausadamente: “Eu só queria provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém”. Em sincronia fomos virando o pescoço em câmera lenta para ele que finalizou orgulhoso: “Renato Russo”. Pasmo, emendei: “Vai pra puta que pariu!!! ‘Dercy Gonçalves'”. Que cena! O André chegou a dizer que eu vim ao mundo para falar aquela frase! Nesse dia o Rafael ganhou o apelido de “Mala” que em seguida foi acrescido de um “1” para diferi-lo do Carlos Eduardo (o Mala 2), um amigo que ele trazia de Volta Redonda (que fica a 220 quilômetros de Pedralva).

 

Íamos também às cachoeiras e na Pedra Branca, sobretudo. É uma serra espetacular que deu nome ao nosso município e onde acampávamos. Tínhamos muito pique e animação e até levávamos para lá amigos que não a conheciam, como o Thales (primo do André) e o Rafael. Uma das coisas “sem-pé-nem-cabeça” que fizemos foi ir a pé para o sítio no Castelhano (uns bons quilômetros em estrada de terra) às 4h da madrugada. Foi após um baile no Clube Recreativo com Legião Urbana Cover (o vocalista era bem parecido fisicamente com o Renato Russo e o guitarrista estava mais para Keith Richards). Chegando lá, imediatamente fomos dormir. Acordando, imediatamente voltamos. A pé. Parece um “programão de índio”, mas não. Éramos muito empolgados e era muito bom, só a ida já tinha compensado, umas três horas andando debaixo de um céu absurdamente estrelado e batendo papo. (Claro, hoje em dia achamos mais conveniente ficar umas três horas conversando na mesa de um bar).

 

Um episódio clássico e muito engraçado desse ano (foi até publicado em O Centenário, o jornal de Pedralva) é a história do “radinho”. Era véspera de mais um acampamento na Pedra Branca e estávamos nos virando com os preparativos. Em certo momento eu estava andando com André e Bruno e combinando acerca do que levaríamos (talvez tivéssemos ido comprar algum alimento). Como iríamos a pé (o que incluía uma trilha extremamente íngreme de mais de uma hora) tínhamos que racionalizar e só levar o que viria a ser útil. Pensando nisso, despretensiosamente pergunto para o Bruno: “Você vai levar seu radinho ou quer que eu leve o meu?” (Tínhamos uns pequenos rádios muito medíocres, mas na altitude da serra captavam até estações de Madagascar). Bruno respondeu: “Eu tô levando o meu, mas leva o seu também.” Argumentei que, como era somente um único acampamento, não haveria a necessidade de dois rádios e, além do mais, já estávamos levando muita coisa. Bruno bateu pé e diante da sua insistência o questionei: “Mas para que levar dois radinhos?!” Bruno respondeu meio impaciente, como se estivesse falando o óbvio: “Ora, se acabar a pilha do seu a gente usa o meu!!!” Não precisa falar que eu e André “cascamos o bico” de rir, a ponto de chorar.

 

O mais engraçado era que o Bruno não via razão para nossas gargalhadas, e nisso foi ficando muito impaciente. Aparentava que era uma questão de honra fazer com que enxergássemos a “obviedade” de sua resposta. Assim, começou a defender seu ponto de vista como se fôssemos crianças de cinco anos (talvez pensasse que só assim o entenderíamos): “O seu radinho está lá tocando ‘lá, lá, lálá, lálálá’ e acaba a pilha. O que que a gente faz?… …” E em um surto de razão, muito empolgado e cheio de si: “A gente pega o meu!!!” Nessa hora já estávamos literalmente rolando no chão com as risadas que já ficavam minguadas tamanha a dor na barriga. O Bruno perguntava do que estávamos gargalhando e ficava ainda mais impaciente. Poderíamos ter deixado ele descobrir, mas como não tínhamos mais força para rir o André perguntou muito simplesmente: “Não é mais fácil levar pilhas reserva?”. Bruno ficou uns três segundos congelado analisando: “Ah, é…”. O estranho é que, não sei por qual motivo, acabamos mesmo levando os dois radinhos.

 

O Bloco em 1999

A faculdade de João Paulo e Luquinha (ver história de 1998) estava prevista para se iniciar em agosto, mas houve uma grande greve nacional das universidades públicas que adiou o início das aulas. No entanto, toda essa épica agitação de 1998 parecia estar encontrando seu fim próximo ao término daquele ano. Em novembro os dois se mudaram para Juiz de Fora. Pedralva estava se “esvaziando” da velha turma, pois, devido ao seu pequeno tamanho, boa parte dos jovens, após concluir os estudos, se muda da cidade para fazer um curso superior ou trabalhar.

 

Em janeiro e fevereiro de 1999 o pessoal que estudava em universidades federais estava repondo a greve, e outra parte da turma prestando vestibular. Bruno estava se mudando para Itajubá, onde iniciaria o primeiro ano e estudaria durante todo o ensino médio. Eu começava a fazer cursinho pré-vestibular (também em Itajubá) e tinha claro em minha mente que aquele seria um ano de muito estudo (e acreditem, foi). Haroldo tinha passado para ciência da computação na EFEI (hoje, UNIFEI) e pegava o mesmo ônibus que eu. Em suma, os tempos não eram os mesmos, cada um tinha assumido suas responsabilidades.

 

Era muito provável que o Bloco do Pink Floyd permanecesse como uma história restrita ao seu ano de criação. A turma já não tinha a mesma união e estavam todos com seus compromissos. O primeiro ano do Bloco havia sido maravilhoso, mas ninguém pensava seriamente sobre o ano seguinte: “Será que o Bloco do Pink Floyd vai continuar?”. Era realmente difícil pensar em tudo de novo porque, como já dito, muita coisa havia mudado.

 

Eu estava na festa de aniversário da Patrícia Faria, uma grande amiga que, apesar do sobrenome, não tem parentesco estreito comigo. Por ser seu aniversário, devia ser um dia próximo de 25 de fevereiro de 1999. Lembro de estarmos no seu sítio o Bruno, sua irmã Raíssa, Luiz Renato e eu. Pela proximidade dos dias de folia estávamos conversando sobre o carnaval. Luiz Renato falou que tinha visto a camiseta do Bloco do Pink Floyd em um bar e que iria comprar, pois a tinha achado muito bonita. Fiquei sabendo dessa maneira, o que me deixou muito surpreso. Não posso falar que me senti excluído, já que só estava pensando em estudar e bastante alheio ao restante. De toda maneira, fiquei muito curioso para saber quem estava puxando aquilo.

 

Empreendi esforços para descobrir quem tinha feito a camiseta do Bloco e logo descobri que haviam sido Haroldo e Nilton. Assim, todo o mérito da continuidade do Bloco do Pink Floyd no segundo ano deve ser atribuído a eles. E fizeram um bom trabalho. Logo me inteirei e animei com a ideia, partindo para ajudar novamente.

 

A camiseta fora feita em Itajubá, uma decisão muito lógica. Não seria possível novamente pintá-las à mão, como no último carnaval, já que a coesão da galera não era a mesma e camisetas feitas de forma “um pouco mais profissional” poderiam permitir um número maior de integrantes.

 

O padrão básico da camiseta de 1999 foi seguido por todos os anos seguintes. As camisetas brancas agora eram negras, o que condizia mais com a espírito rock’n’roll e destacava o Bloco, chegando a se tornar uma marca registrada. O muro tinha ido para a parte de trás e recebeu em letras pichadas “The Carnawall 99″. Na frente, logo abaixo de “Bloco do Pink Floyd” em letras que podem ser descritas como “bem carnavalescas”, havia a capa do Division Bell. Devido às sérias restrições técnicas da mulher que havia feito a camiseta, a imagem aparecia em tons monocromáticos de azul. Os dois totens não ficaram muito fidedignos à capa do álbum, mas aquela mistura de preto e azul acabou ficando razoavelmente boa para a época. Abaixo da imagem estava “Pedralva – MG – Sul de Minas”. Nossa cidade é bem pequena, portanto sempre que estamos em uma localidade mais distante e nos perguntam de onde somos temos que ficar explicando e dando referências. Por isso, na camiseta, em tom de brincadeira, logo abaixo do nome da cidade veio a complementação “Perto de Itajubá, próximo a São Lourenço”. Muitas camisetas foram vendidas e nos preparávamos para o segundo “Carnawall”.

 

Camiseta-1999

Começava a grande festa brasileira. As pessoas que não gostam de carnaval se refugiam em algum sítio ou outro dos poucos lugares no país que não são atingidos de assalto pelo carnaval. Na televisão é praticamente o único assunto, nas ruas, nas músicas… é a onipresença do domínio momesco. E estávamos todos lá, um ano depois dos acontecimentos já narrados, um pouco diferentes, mas animados (os ânimos indicavam fortemente que aquele carnaval seria bom).

 

Na sexta-feira, o carnaval começou inusitado: com um trote na Raíssa, minha colega de escola desde a infância. O resultado do vestibular havia saído naquele dia e ela passara para comunicação social. Bruno e eu ficamos o dia todo preparando poções, caldos e soluções, nos quais fomos muito competentes em fazer com que tivessem odores repugnantes. O dia era perfeito e tudo já estava devidamente planejado, inclusive com o apoio do Luiz Renato, que namorava a Raíssa na época. A “Caloura” por certo já aguardava o seu destino e, nos conhecendo, desconfiava do nosso silêncio.

 

A noite de sexta estava lá e um ambiente “familiar” chegava junto: as músicas de carnaval, o “povo de fora” (visitantes e turistas), as mesmas espumas chatas que os chatos teimam em jogar, os confetes e o sentimento de estar em um momento especial que deveria ser muito bem aproveitado. A camiseta do Bloco já estava cuidadosamente guardada para o dia de exibição. Para aquele dia, no entanto, o que seria apropriado? A camiseta do Bloco do ano anterior, aquela pintada à mão! Eu a tinha usado apenas algumas vezes ao longo do ano, mas ela “queria” estar ali: comemorando um ano e anunciando que “algo” estava por vir.

 

A Raíssa logo foi pega e depois de apenas alguns minutos já nem se importava mais com a sujeira, e apenas se divertia e merecidamente comemorava. Brunão também: soltava vários foguetes que assustavam toda a praça, que nessa hora já se encontrava bem lotada. Sujávamos a Raíssa alternadamente a alguns papos e risadas, e quando o assunto se esgotava: vamos sujá-la novamente. Lógico que muito limpos não saímos dessa, alguns dos líquidos e gosmas foram parar em nossa própria roupa. André, no entanto, de maneira infantil (larga mão de ser criança, André!) teimava em “sem querer” me sujar também. E foram várias tentativas até a aparente desistência. No final da noite, já meio sujos, fomos parar na frente da casa de seu avô já nos preparando para ir embora. Eu já tinha pensado que ele desistira quando, desprevenido, fui atingido por um branco projétil com clara e gema. O motivo de sua insistência (com o apoio do Bruno) é que eu havia prestado vestibular na Fuvest e ele achava que eu tinha ido bem. Não tinha, eu não passei, isso era suficiente. Porém, já que eu estava sujo e já me preparando para ir embora, não me importei muito.

 

Chegando em casa, deixei a camiseta de 1998 do Bloco no tanque do lado de fora para que fosse lavada. Foi a última vez em que a vi… Na verdade é muito triste, porque aquela velha camiseta do primeiro ano do Bloco do Pink Floyd não só era única como se tornou muito rara. Bastaram poucos anos para que sobrassem menos de uma dúzia daquelas familiares camisetas pintadas à mão. É uma relíquia hoje, sendo a única que não possuo. Isso em breve será parcialmente resolvido: pretendo pintar uma réplica (totalmente autorizada por mim)!

 

O Bloco do Pink Floyd já tinha seu dia de sair e tudo já se encontrava de certa forma combinado. O entrosamento, é óbvio, não era o mesmo do ano anterior: não tínhamos passado os dias de carnaval juntos em prol de qualquer coisa, as camisetas já estavam prontas e bastava recolher o dinheiro e entregá-las. A turma não tinha mudado muito, grande parte do pessoal continuava e alguns membros novos tinham aderido. A quantidade de membros havia aumentado, acho que devíamos ter o dobro em relação ao ano anterior, portanto cerca de 60 pessoas. Através do Nilton, começaram a participar nesse ano a Nádia (sua irmã e minha prima), seu marido André e a irmã deste último, a Patrícia (mais conhecida como Patrícia Professora). Os três sempre estiveram conosco e hoje são seus filhos que saem todos os anos.

 

Embora somente o primeiro ano será lembrado por aquela empolgação heróica e corajosa, o segundo também foi bem especial. O orgulho da nossa camiseta “pretazul” refletia o sentimento de crescimento e “profissionalização” do Bloco ao mesmo tempo em que mostrávamos para nós mesmos e para todos que o que havíamos feito há um ano era muito mais do que uma simples e despretensiosa farra adolescente.

 

Onde seria a concentração do Bloco? Nesse ano não tínhamos mais a casa do João Paulo. Aliás, não tínhamos mais nem o João Paulo! Tenho que contar para vocês… Esse cara havia sido fundamental no ano anterior: estava presente no momento do surgimento da idéia do BPF e em sua casa que tínhamos feito todos os preparativos e a concentração. Agora, nesse carnaval, ele andava meio sumido, ninguém sabia dizer seu paradeiro, embora ele tivesse comprado a camiseta do Bloco do Pink Floyd. Não demorou para que “vazasse” a notícia de que ele estava passando o carnaval inteiro no rebanhão! Não quero depreciar o encontro religioso, mas estranhei muito o fato, pois eu conhecia muito bem meu amigo para saber que deveriam haver motivos mais mundanos para ele ter relegado o Bloco. Acabamos organizando uma missão especial para tentar desvendar que razões o impulsionavam e se ele arrumaria uma maneira de sair pelo menos no dia do desfile. Tenho que dizer que nossa missão fracassou, os motivos por ele alegados eram musicais (sei…) e não haveria possibilidade de abandonar o terreno alheio (quem seria a menina?).

 

A escolha para o local da concentração foi natural e era de certa forma óbvia. Em frente à rodoviária há o encontro de cinco ruas, o que resulta em um espaço amplo e muito próximo do centro da cidade. De lá é possível seguir uma única rua plana (fato de extrema raridade na montanhosa Pedralva) até a praça. O trajeto, ao ritmo do Bloco, demora cerca de trinta minutos, o ideal para que a empolgação crescesse e atingisse seu ápice quando chegássemos ao nosso destino.

 

A bandeira “murada” que tínhamos feito havia sido destruída naquele mesmo carnaval do surgimento do Bloco. O Nilton, tomado pelo fanatismo, não a tirou das costas ao término do desfile e continuou com ela até o fim do carnaval. Lembro que um tonto (no carnaval?!!!), sem motivo aparente, a grudou e rasgou. Não houve confusão alguma, mas ficamos um pouco revoltados. Nesse ano, portanto, foi feita uma faixa tal qual a bandeira anterior, que serviria para abrir e anunciar o Bloco. Ela foi orgulhosamente carregada por Pacato e sua prima Sabrina, dois membros essenciais no ano anterior. Na verdade, o que de fato abria o desfile era a nossa porta-bandeira Patricinha. Vestida com a camiseta do ausente João Paulo (que para ela ficou um pouco “grandinha”) e carregando o nosso “estandarte”: a confecção das camisetas nos deu uma amostra para demonstrar como ficaria a estampa e aproveitamos para fazer uma mini-bandeira. Existe até hoje e está pendurado no treme-terra que utilizamos na bateria do BPF desde aquele ano.

 

Havia chegado a segunda-feira de carnaval, era a data acertada para sairmos. A escolha foi, provavelmente, apenas para repetir o mesmo dia do ano anterior. No entanto, é um dos dias mais apropriados por ser véspera do feriado e, por conseqüência, mais movimentado. Colocamos nossa camiseta nova (que por possuir aquela estampa grossa era pouco maleável) e saímos orgulhosos e, como não poderia deixar de ser, curiosos. Perto da hora marcada, dei uma passada na praça. Lá estava o Extrabefaiz com seu desfile que, ocasionalmente, contava com escassos membros. Assistindo àquele bloco fiquei um pouco pensativo: será que a empolgação é somente inicial e futuramente só restam os mais fiéis? Eles estavam, naquele ano, completando três décadas e tinham menos integrantes que nosso Bloco no primeiro ano. Felizmente, foi um fato isolado e o Extrabefaiz realizou ótimos desfiles posteriormente. Nesse momento me encontrei com o André e a Elaine, sua namorada na época. Tínhamos levados os dois para saírem com a gente e foi assim que funcionou: cada um dos membros originais levou amigos mais próximos e parentes para aumentar a turma.

 

Após assistirmos àquele desfile, agora era hora de sermos assistidos, o que sempre dá aquela apreensão. Dirigimos-nos para a rodoviária e à medida que nos aproximávamos a nossa camiseta ia se juntando, progressivamente, a outras iguais. Chegando lá, foi (e sempre será) muito emocionante ver a galera reunida. Todos vestidos de maneira uniforme e a impressão que isso causa: a união em prol de um sentimento comum. Os instrumentos já começavam a se aquecer e parece que à medida que iam se unindo e se tornando mais constantes marcavam uma contagem regressiva. De certa forma era.

 

Sempre gostei da concentração, é o momento do entrosamento, das conversas, das fotos e da busca por animação. A descontração vai até aquele momento: vamos sair! A galera se reuniu e começou a gritar e cantar. Não é preciso muito empenho para que a empolgação tome conta: ela é diretamente proporcional à quantidade de público, que aumenta ao longo do trajeto. E sempre fizemos bonito, sempre mostramos muita energia: é um bloco caracteristicamente jovem. Um ponto interessante é que tanto os gritos como os instrumentos quase nunca estavam ensaiados, eram espontâneos. Alguns dos gritos se repetiram e, como reflexo da nossa “ampla” experiência de… um desfile, soubemos aproveitar os pontos fortes da estreia. O CD já estava lá no palco e confirmando a apresentação de nossa faixa frontal, a música: Pink Floyd! (Deve ser muito engraçado saber o que algumas pessoas devem pensar…). Após o helicóptero, as batidas no início de “The Happiest Days of our Lives” eram acompanhadas pela nossa bateria. Quando chegava o final dessa música, todos cantaram com extrema força as vocalizações que culminam com o início de “Another Brick in the Wall (Part 2)”. Poderia até arrepiar se você parasse mais um pouco, mas estando ali no meio você é levado junto com os saltos coletivos que acompanham a famosa letra anti-repressão. Letra cantada por todos, pelos que a conhecem e pelos que não fazem idéia do que sai de sua boca.

 

Terminada a apresentação, ninguém queria ainda se dispersar, ficamos ali atônitos, surpresos. Um dos motivos é o cansaço, os mais empolgados sempre ficam roucos e, invariavelmente, considerando o calor de fevereiro, todos ficam suando às bicas. Mas permanecíamos ainda juntos pelo prazer de não estar acreditando no que acabara de ocorrer, aproveitando o momento.

 

Esse término de desfile – ao contrário do anterior – trazia consigo uma certeza: aquilo aconteceria novamente no ano seguinte. Nesse momento era mais concreta a possibilidade de que estávamos fazendo alguma coisa promissora ou, ao menos, com boas chances de ainda experimentar novas possibilidades. Sentimos o crescimento, e pela aceitação soubemos nesse momento, talvez de forma inconsciente, que havia muito terreno ainda a ser explorado. Contrariamente também ao ano anterior, fomos notícia! Merecemos destaque entre os acontecimentos daquele carnaval, o que nos deixou orgulhosos e, por certo, um pouco mais famosos também. Agora mais pessoas sabiam o que era o Bloco do Pink Floyd e nós sabíamos ainda mais que nós éramos o Bloco do Pink Floyd!

 

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3 Respostas

  1. Julio Cesar de Moraes Masculino Filho disse:

    Muito bom os textos! Gostei muito, espero ir ano que vem.

  2. Fran Polin disse:

    Amei conhecer as histórias dos idealizadores do bloco, e da criação do bloco, claro. Esse ano irei pessoalmente conhecer essa festa!! Parabéns!

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